Até mesmo seu amigo mais próximo relutou em contar e somente numa noite de farra, após muitas cervejas, é que se dispôs a revelar para Rodrigo o que todos já sabiam : o nome daquela garota era encrenca.
Mas até aquele fim-de-semana, num barzinho qualquer do bairro, mesmo depois de muito tentar perguntando aqui e ali pro pessoal conhecido, ainda assim não havia conseguido saber ao menos o nome e quanto o mais uma ficha mais detalhada daquela gata incrível que havia aparecido do nada e que ali estava sozinha numa mesa a tomar lentamente uma dose de algo quente enquanto acompanhava com olhos intensos a banda que tocava um som animado naquela fria noite de inverno.
Aproximou-se dela num momento mais calmo e tentou puxar alguma conversa, tipo "puxa, você é mesmo linda demais e eu preciso ao menos saber teu nome para te chamar nos meus sonhos...", claro que não colou e, quando o silêncio dela já o desanimara demais para mantê-lo ali, Rodrigo já quase saindo porta afora pôde ouvir a voz que o tocou n'alma e o aprisionou para sempre :
- Você acredita em amor eterno ? - Foi então a primeira coisa que ouviu de Priscila.
*
Mas saber o nome dela não foi a coisa mais difícil para Rodrigo, que até então não havia se preocupado muito com as garotas que tivera, contanto que conseguisse lembrar de seus rostos quando por acaso quisesse ligar para elas.
E então aparece aquela criatura diferente de todas as outras (isso mesmo, o velho lugar-comum) e confunde sua cabeça toda, não deixando mais que pensasse em outra coisa que não nela, e ainda por cima sem saber como encontrá-la, pois desde aquele dia no barzinho, onde ficara hipnotizado só de ouvir Priscila lhe falar (numa proximidade deliciosamente perigosa), sobre coisas estranhas e diferentes, entre outras que ele nem prestara atenção absorto que estava naquela voz suave e na boca carnuda que sensualmente dava forma as suas palavras; desde aquele dia nunca mais a encontrara...
... até o fim-de-semana seguinte, quando largou tudo o que estava fazendo (ou seja, o violão, o cigarro e a latinha de cerveja já quase vazia) e foi ver o racha que sempre acontecia na avenida principal lá da cidade.
*
Não teve dúvidas de que era ela a garota de jeans bem justo e uma camiseta marcante onde se lia "Dust in the Wind".Chegou perto dela e daí prá frente foi tudo muito rápido, uma sucessão de olhares, toques e beijos que só terminaram lá pelas duas da manhã, quando os dois nus no sofá de sua casa ouviam agora o Kansas repetir a mensagem já conhecida de Priscila enquanto repartiam uma cerveja gelada direto do gargalo.
- ...um pacto... - Priscila diz pra Rodrigo que se espreguiça, já meio cansado pela farra dos dois.
- O que você disse? - Agora ele se ergue e procura por um maço de cigarros nos bolsos da jaqueta.
- Eu disse que devíamos fazer um pacto - repete Priscila, ainda nua e com os bicos dos seios eriçados pelo frio que pela janela da sala entrava e envolvia o ambiente. - Proponho que a gente prometa sermos somente um do outro, e também que estejamos sempre próximos, pelo resto de nossas vidas, e até mesmo além dela ...
*
Lembra-se dessa conversa nitidamente, apesar da situação atual estar elevando sua adrenalina à mil, inclusive recorda-se que foi um tanto o quanto evasivo no que falou em seguida, mesmo que ainda assim ela o tenha abraçado e beijado até recomeçarem a transa com nova energia, talvez para assim selar o acordo que ela propôra.
Consegue avançar o filme de sua memória para algum tempo depois dessa noite, precisamente alguns meses depois, quando Priscila entrara em sua casa totalmente histérica e descontrolada, derrubando coisas por onde passava e chutando o que já estava caído, enquanto resfolegante gritava uma mesma frase incessante : "por quê, por quê? Por quê você fez isso comigo?
Claro que ele sabia o que havia feito, afinal abandonar sua garota por vários dias e depois ser surpreendido por ela enquanto passeia de moto com outra não é algo que se esqueça facilmente. Só não havia tido oportunidade de discutir sobre o assunto, pelo menos até aquele momento...
...não fosse o detalhe que Priscila, no instante em que Rodrigo perdia-se em lembranças, simplesmente tirou de sua bolsa uma pistola preta que tanto tinha de imponente o que deveria ter de letal e que ela não demorou em demonstrar, fazendo um único disparo que deixou um furo bem no centro do travesseiro que havia na cama, este espirrando espuma prá todos os lados enquanto ele se jogava ao chão, então em total confusão.
*
Quisera ele talvez não ter se erguido tão rapidamente, ou ao menos não ter reparado na faca brilhante que naquele mesmo dia pegou pra cortar alguma coisa sem importância e depois deixou por ali. O fato é que sem nem mesmo se dar conta, de súbito pulou atrás de Priscila com a faca em uma das mãos e pelas suas costas penetrou seu corpo de uma forma que não imaginou ser tão... erótica. Golpeou mais algumas vezes, experimentando partes e ângulos que o deixaram perceber por entre seus longos cabelos, olhos que pareciam agora lhe fazer novas perguntas enquanto mantiam-se bem abertos, tamanho o espanto. A arma escapara das mãos dela e caía próxima de um vaso, sendo que a bolsa era arremessada para frente enquanto seu corpo já quase sem vida caia com um baque suave ao longo do corredor da casa.
*
Isso fora a dois dias, não sabe ao certo. Tudo o que lembra é de haver prosseguido com o ritual de perfuração com a faca em cima do corpo então tombado daquela menina que tanto tinha lhe tomado a atenção, mas que no momento surpreendia somente pela profusão de sangue que ora escorria aqui e mesmo jorrava acolá, quando sua faca trespassava alguma veia ou artéria. Recorda-se de haver tentado separar partes do corpo, como a desfazer a essência humana que as formas daquele corpo despido ainda insistiam em mostrar, mas, ante o fracasso na empreitada, pegou então um serrote de sua caixa de ferramentas e porfim realizou o intento.
*
De onde está sentado, no chão da cozinha, consegue agora perceber os pingos vermelho-vivos que escorrem lentamente da base da geladeira, calmamente denunciando o ato que lhe tomara várias horas daquele dia fatídico, onde após terminado o esquartejamento, havia guardado em vários potes, pedaços e mais pedaços de diversas formas e texturas (misturando-se assim pele, cabelos, ossos e carne-viva) do ser que fôra Priscila, e ainda, dá-se conta que um único naco de carne já bastante mastigado em suas mãos pode muito bem justificar o gosto viscoso e adocicado de sangue em sua boca. Lá fora se ouve ao longe os sons da noite, gatos e cachorros, carros e pessoas e tudo o mais que é urbano...
... e ficando cada vez mais e mais alto, são ouvidos também os sons de passos firmes e decididos de prováveis policiais que algum vizinho tenha chamado, e assim, enquanto olha a Lua enquadrada pelo vitrô na parede próxima pensa que de uma forma bem particular conseguiu cumprir o desejo de Priscila de estarem unidos pra todo o sempre.
Mas até aquele fim-de-semana, num barzinho qualquer do bairro, mesmo depois de muito tentar perguntando aqui e ali pro pessoal conhecido, ainda assim não havia conseguido saber ao menos o nome e quanto o mais uma ficha mais detalhada daquela gata incrível que havia aparecido do nada e que ali estava sozinha numa mesa a tomar lentamente uma dose de algo quente enquanto acompanhava com olhos intensos a banda que tocava um som animado naquela fria noite de inverno.
Aproximou-se dela num momento mais calmo e tentou puxar alguma conversa, tipo "puxa, você é mesmo linda demais e eu preciso ao menos saber teu nome para te chamar nos meus sonhos...", claro que não colou e, quando o silêncio dela já o desanimara demais para mantê-lo ali, Rodrigo já quase saindo porta afora pôde ouvir a voz que o tocou n'alma e o aprisionou para sempre :
- Você acredita em amor eterno ? - Foi então a primeira coisa que ouviu de Priscila.
*
Mas saber o nome dela não foi a coisa mais difícil para Rodrigo, que até então não havia se preocupado muito com as garotas que tivera, contanto que conseguisse lembrar de seus rostos quando por acaso quisesse ligar para elas.
E então aparece aquela criatura diferente de todas as outras (isso mesmo, o velho lugar-comum) e confunde sua cabeça toda, não deixando mais que pensasse em outra coisa que não nela, e ainda por cima sem saber como encontrá-la, pois desde aquele dia no barzinho, onde ficara hipnotizado só de ouvir Priscila lhe falar (numa proximidade deliciosamente perigosa), sobre coisas estranhas e diferentes, entre outras que ele nem prestara atenção absorto que estava naquela voz suave e na boca carnuda que sensualmente dava forma as suas palavras; desde aquele dia nunca mais a encontrara...
... até o fim-de-semana seguinte, quando largou tudo o que estava fazendo (ou seja, o violão, o cigarro e a latinha de cerveja já quase vazia) e foi ver o racha que sempre acontecia na avenida principal lá da cidade.
*
Não teve dúvidas de que era ela a garota de jeans bem justo e uma camiseta marcante onde se lia "Dust in the Wind".Chegou perto dela e daí prá frente foi tudo muito rápido, uma sucessão de olhares, toques e beijos que só terminaram lá pelas duas da manhã, quando os dois nus no sofá de sua casa ouviam agora o Kansas repetir a mensagem já conhecida de Priscila enquanto repartiam uma cerveja gelada direto do gargalo.
- ...um pacto... - Priscila diz pra Rodrigo que se espreguiça, já meio cansado pela farra dos dois.
- O que você disse? - Agora ele se ergue e procura por um maço de cigarros nos bolsos da jaqueta.
- Eu disse que devíamos fazer um pacto - repete Priscila, ainda nua e com os bicos dos seios eriçados pelo frio que pela janela da sala entrava e envolvia o ambiente. - Proponho que a gente prometa sermos somente um do outro, e também que estejamos sempre próximos, pelo resto de nossas vidas, e até mesmo além dela ...
*
Lembra-se dessa conversa nitidamente, apesar da situação atual estar elevando sua adrenalina à mil, inclusive recorda-se que foi um tanto o quanto evasivo no que falou em seguida, mesmo que ainda assim ela o tenha abraçado e beijado até recomeçarem a transa com nova energia, talvez para assim selar o acordo que ela propôra.
Consegue avançar o filme de sua memória para algum tempo depois dessa noite, precisamente alguns meses depois, quando Priscila entrara em sua casa totalmente histérica e descontrolada, derrubando coisas por onde passava e chutando o que já estava caído, enquanto resfolegante gritava uma mesma frase incessante : "por quê, por quê? Por quê você fez isso comigo?
Claro que ele sabia o que havia feito, afinal abandonar sua garota por vários dias e depois ser surpreendido por ela enquanto passeia de moto com outra não é algo que se esqueça facilmente. Só não havia tido oportunidade de discutir sobre o assunto, pelo menos até aquele momento...
...não fosse o detalhe que Priscila, no instante em que Rodrigo perdia-se em lembranças, simplesmente tirou de sua bolsa uma pistola preta que tanto tinha de imponente o que deveria ter de letal e que ela não demorou em demonstrar, fazendo um único disparo que deixou um furo bem no centro do travesseiro que havia na cama, este espirrando espuma prá todos os lados enquanto ele se jogava ao chão, então em total confusão.
*
Quisera ele talvez não ter se erguido tão rapidamente, ou ao menos não ter reparado na faca brilhante que naquele mesmo dia pegou pra cortar alguma coisa sem importância e depois deixou por ali. O fato é que sem nem mesmo se dar conta, de súbito pulou atrás de Priscila com a faca em uma das mãos e pelas suas costas penetrou seu corpo de uma forma que não imaginou ser tão... erótica. Golpeou mais algumas vezes, experimentando partes e ângulos que o deixaram perceber por entre seus longos cabelos, olhos que pareciam agora lhe fazer novas perguntas enquanto mantiam-se bem abertos, tamanho o espanto. A arma escapara das mãos dela e caía próxima de um vaso, sendo que a bolsa era arremessada para frente enquanto seu corpo já quase sem vida caia com um baque suave ao longo do corredor da casa.
*
Isso fora a dois dias, não sabe ao certo. Tudo o que lembra é de haver prosseguido com o ritual de perfuração com a faca em cima do corpo então tombado daquela menina que tanto tinha lhe tomado a atenção, mas que no momento surpreendia somente pela profusão de sangue que ora escorria aqui e mesmo jorrava acolá, quando sua faca trespassava alguma veia ou artéria. Recorda-se de haver tentado separar partes do corpo, como a desfazer a essência humana que as formas daquele corpo despido ainda insistiam em mostrar, mas, ante o fracasso na empreitada, pegou então um serrote de sua caixa de ferramentas e porfim realizou o intento.
*
De onde está sentado, no chão da cozinha, consegue agora perceber os pingos vermelho-vivos que escorrem lentamente da base da geladeira, calmamente denunciando o ato que lhe tomara várias horas daquele dia fatídico, onde após terminado o esquartejamento, havia guardado em vários potes, pedaços e mais pedaços de diversas formas e texturas (misturando-se assim pele, cabelos, ossos e carne-viva) do ser que fôra Priscila, e ainda, dá-se conta que um único naco de carne já bastante mastigado em suas mãos pode muito bem justificar o gosto viscoso e adocicado de sangue em sua boca. Lá fora se ouve ao longe os sons da noite, gatos e cachorros, carros e pessoas e tudo o mais que é urbano...
... e ficando cada vez mais e mais alto, são ouvidos também os sons de passos firmes e decididos de prováveis policiais que algum vizinho tenha chamado, e assim, enquanto olha a Lua enquadrada pelo vitrô na parede próxima pensa que de uma forma bem particular conseguiu cumprir o desejo de Priscila de estarem unidos pra todo o sempre.

Nenhum comentário:
Postar um comentário