segunda-feira, 1 de março de 2004

Apenas mais uma recordação

E então, quando finalmente decidi ligar para ela, não foi sem espanto que ouvi do outro lado da linha (e do mundo, se você levar em consideração que eu estava aqui em Ribeirão e ela agora em Porto das Andorinhas, vejam só), sua voz suave mas ainda segura me dizendo um "alô, quem fala" após esses confusos seis meses de separação involuntária (de minha parte, ao menos) depois que ela subitamente decidiu mudar o rumo de sua vida.

O susto foi seguido pela queda de um copo com dois dedos de conhaque que eu bebericava (agora e de vez em quando, numa freqüência crescente), sendo que rapidamente joguei uma blusa qualquer que estava por ali, tentando tolamente minimizar o desastre.

- Alô, Cláudia? Sou eu, o Marcelo... - nada convicto, até aqui.

- Oi Ma, há quanto tempo, hein? O que você tem feito por aí, como está Ribeirão? Puxa, que saudade!

- Tá na mesma Cláudia, claro que já nem tão alegre depois que você se foi...

- Ah, não fala assim Marcelo, a gente já discutiu isso pra caramba antes. Mas e aí, tá na faculdade ainda, parou de fumar finalmente?

- Até que resolvi essas coisas, mas só que ao contrário: parei a "facul", mas tô fumando que nem um condenado... mas me fala, e você, como vai aí com o "Pedrinho" ?

- Do jeito que você fala deu pra ver que ainda não aceitou meu lance com o Pedro Paulo, mas saiba que tá indo super bem nosso negócio de artesanato aqui na cidade, inclusive estamos pensando em abrir mais uma lojinha até o final do ano.

- É bom saber que a infelicidade de uns não necessariamente é a mesma para outros...

- Olha aqui Marcelo, acho que você não deveria perder seu tempo ligando se é só pra me ofender, então...

- Não, não Cláudia, não desliga, vai. É que nesses dias tenho pensado muito em nós e em tudo o que rolou, aquelas nossas noites juntos e tal, e o lance é que eu queria te pedir algo...

- O quê Marcelo?

- Pensando agora parece loucura, mas a verdade é que eu queria uma lembrança sua, mas não uma coisa qualquer, tem que ser algo especial, como você foi (e ainda é) prá mim...

Achei que não teria coragem para prosseguir, e quando aqueles poucos segundos de silêncio já haviam se transformado numa boa desculpa para desligar o telefone, aquela mesma voz que já me acalmara os ânimos em tantos momentos difíceis, agora vinha a mim como que a aprovar sem prévia avaliação a doideira que eu estava prestes a cometer.

- O que 'cê qué, Ma? Fala que você me deixou curiosa...

Então era tarde para voltar atrás, e como não havia realmente nenhuma justificativa para o que eu iria dizer em seguida, resolvi evitar rodeios e fui direto ao ponto:

- Cláudia, meu amor, eu queria que você me enviasse aquela foto que eu tirei de você nua naquele reveillon que passamos em Ilha Bela.

Pronto, estava dito. Agora imagens surgiam em meu cérebro atormentado, sendo elas uma colagem de diabinhos e labaredas incandescentes misturando-se com as ondas do mar de um entardecer deslumbrante onde uma garota de cabelos longos a confundir-se com a areia da praia estava então a despir-se inocentemente, deixando sua roupa a mercê da vontade do mar como se estas fossem oferendas a algum santo.

Claro que aquilo fora uma brincadeira repentina, dessas que logo se desfazem antes de haver algum mal-entendido. E assim, tudo o que pude fazer naquele breve (mas real) momento fora dar a minha grande paixão minha camisa para que ela pudesse cobrir-se, mas claro que antes houvera tempo para eu bater uma única foto com sua própria máquina que eu segurava, então. E assim aqui estou eu querendo uma pequena brecha no tempo para rever um momento tão marcante em minha vida, mas hesitante quanto a acreditar no sucesso dessa ousada empreitada.

Já me distanciava em novos devaneios quando fui chamado de volta à realidade. Era a Cláudia, e ela sim foi direta na sua não tão curta (e agora não duvido derradeira) resposta:

- Marcelo, você sabe que a gente se curtiu muito e que aqueles tempos foram mesmo maravilhosos, mas quero te contar algo que não te disse antes, o fato é que justamente aquela foto foi quem nos separou, pois o Pedro estava passando pela praia no dia em que ela foi tirada, e depois disso ele começou a perguntar por mim às minhas amigas até que um dia eu conversei com ele e senti uma atração estranha por aquele cara que dizia que minha imagem nua naquela praia tornara-se inesquecível para ele. Em princípio fomos só amigos, mas depois não deu mais... e o resto você sabe, né? Então como eu poderia dar a você algo que tão corajosamente fora conquistado pelo cara que eu gosto tanto, hein?

Ela desligou em seguida, mas eu nem percebi se ela despediu-se ou não, o negócio é que eu estava agora realmente confuso e muito, mas muito magoado mesmo. Achei que depois de adulto não haveria mais espaço para ilusões, mas também não para decepções como esta. E assim fiquei sem a foto e já não possuía mais a lembrança.

Há, há, há, te peguei , disse o esperto ao tolo. Bom, ao menos ainda sobrou algum conhaque, e eu sei que ele vai cumprir tudo aquilo do que é capaz de fazer por mim.