sábado, 30 de julho de 2005

Despedida

Na manhã cinzenta daquela segunda-feira entremeada por cabeças baixas, expressões indo da apatia a uma angústia velada, eram corpos então a manejarem objetos e a gesticularem com tal rispidez de movimentos que mais semelhanças tinham com máquinas do que com humanos, assim estavam todos ali embaixo da garoa insistente que se impunha desde o raiar do dia.
Murilo ia seguindo o fluxo, perdido em pensamentos enquanto, de forma inconsciente, traçava o percurso que partia de sua moradia no centro até o bairro nobre da cidade, antigo reduto dos imigrantes franceses do início do século, mas que hoje apenas ensaiava um pouco do brilho que tivera em sua época áurea.

De qualquer forma, ali ainda era um bonito lugar, ainda mais quando se levava em consideração que era onde vivia Monique, formosa garota que conhecera em uma palestra oferecida a profissionais da sua área, e que, após longas conversas sobre métodos e planejamento, finalmente se abrira a ele sobre sua verdadeira vocação para o extrovertimento, a ausência de pudor e, o que era mais notável, seu grande apreço pela liberdade de viver plenamente suas paixões.

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Aquele verão foi insuficiente para tão intenso enlace entre os dois, que conseguiram remediar seus impedimentos (ela era noiva de um promissor e ausente gerente de marketing, e ele conseguia conciliar seu cargo pouco notório em um banco com seus dois filhos pequenos e sua mulher eternamente em crise). Assim então ficaram juntos por quase um ano, este ainda que mal notado ante a intensidade com que se relacionavam quando por ventura conseguiam se encontrar na bela casa de Monique naquela perfumada alameda de árvores centenárias e flores abundantes.

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O que havia abreviado o romance ainda não conseguira ser de todo interpretado por Murilo, que ainda se perguntava o motivo enquanto seguia a passos lentos já adentrando pelo caminho que em tantas ocasiões havia cruzado com a maior das emoções, mas agora paradoxalmente pesando um vazio certamente difícil de suportar.

O fato é que há algumas semanas apenas, todos os seus sonhos ruíram com um pequeno texto que havia sido escrito por Monique e deixado num dos bolsos de seu paletó quando do último encontro entre eles.

Nele lia-se nas letras firmes e de formas arredondadas algo que a caligrafia alegre tornava menos cruel do que, sua mente não tinha dúvidas, na verdade o era.

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Bateu na porta com um toque fraco, algo inseguro quanto a revelar sua presença ali e, de costas para a casa que tão bem o acolhera no passado, sentia agora os passos de alguém se aproximando e logo girando a maçaneta para deixá-lo sentir pela fresta da porta a abrir-se o familiar perfume floral que o inundou de imediato com sensações e lembranças que o fizeram até ficar sem fôlego.

E foi assim que, sem ao menos tentar qualquer movimento que o pusesse de frente àquela exuberante jovem que certamente mantinha os belos olhos verdes nele, começou a falar o que tinha preso em sua garganta por tanto tempo.
Foi curto e incisivo, disso não duvidou no momento em que, sem olhar para trás foi embora e nem mesmo pelo resto de sua vida.

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Enquanto que abraçou e reteve em suas lembranças aquele derradeiro discurso, não lhe foi possível obter em sua mente a imagem dela, uma linda garota chamada Monique ali postada com uma expressão de infelicidade que haveria de, naquele momento, conseguir tingir de cinza toda a alameda florida de seu bairro, senão até mesmo o mundo inteiro, assim também não pôde ouvir pela primeira e última vez da voz dela o que lhe tinha escrito naquele malfadado bilhete.

Com lágrimas no olhos, vendo aquele que tornara sua vida melhor partir, ela apenas sussurrou uma única vez, e somente o vento lhe ouviu :

- Eu te amo.