segunda-feira, 10 de maio de 2021

Achados e perdidos

     Era uma tarde de sexta-feira, garoava e estava também fria e morta como convém a todas histórias tristes.

     Saí de casa para a minha caminhada diária pois não havia nada melhor para fazer mesmo - almoçar com a família estava fora de cogitação pois a bem poucas semanas um divórcio sofridamente consumado me tirara tal direito básico.

Lembrei do dia das mães que ocorreria no final de semana que já apontava, pensei com carinho na minha mãe que pelo 5º ano ausente desde seu falecimento não me daria o prazer de estar na sua presença mas numa rápida mudança de humor, alegre concluí que por outro lado a mãe das minhas filhas não necessitaria de qualquer atenção da minha parte.

Isso me aqueceu e assim abri um grande sorriso... e nessa hora senti algo diferente nos músculos da face que, apesar de inicialmente traduzir isso como um momento de liberdade ante as opressões do mundo, logo percebi sua verdade aterradora: apesar do zelo em ter me lembrado e assim trazido desnecessariamente o guarda-chuva para aquela inexpressiva cortina molhada, tinha por infelicidade me esquecido da minha máscara protetora para aquela pandemia que atrasada chegara para nos receber neste novo século!

Após um tempo parado pela perplexidade desanimada que me envolvera, a contragosto dei meia volta e chegando em casa logo encontrei ali numa mesinha ao canto a máscara tão necessária quanto indesejada e enquanto isso apenas pensava com tristeza no sorriso que havia possivelmente perdido para sempre naquele caminho.