Só tinha uma coisa na cabeça, aquele cara. Ia resolver aquilo de qualquer jeito.
O tempo era curto, e pensando em como adiou a coisa só o fez sentir-se mais incapaz. Logo estava a recordar-se de todos aqueles dias passados, desde quando resolvêra por fim em algo que vinha atormentando sua mente por tanto tempo.
Já não era tão jovem, e esse fato o perturbara nem tanto pelas suas conseqüências físicas, já que aparentava razoável saúde, mas sim pelo seu estado de espírito que andava a muito inquieto por todas aquelas mudanças que tão sutilmente se instalaram em seu ser, e que não as percebera até que já não fosse possível mais agarrar-se ao passado desesperadamente tal como um náufrago a uma bóia perdida ao mar. Então era isso, nada mais de amigos, não mais paixões, nem aquele viço diante de oportunidades novas e vibrantes que por toda a infância e adolescência circularam diante de si e daqueles que compartilharam consigo da melhor fase de sua vida.
Claro que a juventude em sua fase pré-adulta proporcionou-lhe muitas experiências, mas tal qual amor platônico que se concretiza, tais acontecimentos acabaram por trazer indesejáveis efeitos colaterais, tais como a mentira justificada, a cobiça, a competição desmedida, e mesmo o cinismo por tudo ao seu redor, sendo que por sua natureza de insistente permanência, tais mudanças acabaram por destruir aquele ser que ele era e que muita saudade deixou por sua partida.
Então já é hora, o ano quase a findar, e entre fogos de artifício e gritos e risos da multidão dispersa pela cidade a brindar o fim de mais um ano em poucos minutos, agora aquela figura triste a contrastar sua aparência apagada e sombria pela de outras pessoas, jovens ou velhas, põe-se então a lembrar pela última vez a situação que se deu a exato um ano atrás quando se encontrava em igual estado emocional.
Era dezembro passado, e, do alto de um prédio, olhava a cidade onde nasceu naquele mesmo grande abc de lutas e mudanças; pensava assim então que nesse mundo vive-se só prá isso mesmo: ir de encontro às dificuldades e batalhar por cada segundo em que se consegue manter a cabeça fora d'água, respirando o precioso ar... . Refletiu então, estava ali perfeita analogia, respirar é o que resume estar vivo, de um jeito ou de outro, não importa que tal vitória apague-se diante da mais certa das verdades, que já o sabemos: morreremos então.
E assim foi que, amarga paródia talvez, resolveu que aquela seria sua resolução de ano-novo para o 2003 que já quase ia chegando: ainda naquele ano deixaria de viver, cessaria de respirar e levaria (se assim fosse-lhe permitido) todas as suas tão doces lembranças de seu passado fugidio para um outro lugar.
Tais minutos preciosos foram-lhe roubados com todos estes pensamentos últimos, então sem mais perda de tempo, enquanto ouvia ao longe o coro da contagem regressiva, já na casa do 6 para o 5 e descendo ritmado, o decidido rapaz tira da jaqueta um pequeno revólver e, despedindo-se do ano e também do mundo, dá um único tiro em sua têmpora, que confunde-se com o estampido de uma champanhe aberta, mas logo perde-se no meio de toda aquela vibração crescente de pessoas e da própria cidade à comemorar cheios de expectativas o ano que chegou.
O tempo era curto, e pensando em como adiou a coisa só o fez sentir-se mais incapaz. Logo estava a recordar-se de todos aqueles dias passados, desde quando resolvêra por fim em algo que vinha atormentando sua mente por tanto tempo.
Já não era tão jovem, e esse fato o perturbara nem tanto pelas suas conseqüências físicas, já que aparentava razoável saúde, mas sim pelo seu estado de espírito que andava a muito inquieto por todas aquelas mudanças que tão sutilmente se instalaram em seu ser, e que não as percebera até que já não fosse possível mais agarrar-se ao passado desesperadamente tal como um náufrago a uma bóia perdida ao mar. Então era isso, nada mais de amigos, não mais paixões, nem aquele viço diante de oportunidades novas e vibrantes que por toda a infância e adolescência circularam diante de si e daqueles que compartilharam consigo da melhor fase de sua vida.
Claro que a juventude em sua fase pré-adulta proporcionou-lhe muitas experiências, mas tal qual amor platônico que se concretiza, tais acontecimentos acabaram por trazer indesejáveis efeitos colaterais, tais como a mentira justificada, a cobiça, a competição desmedida, e mesmo o cinismo por tudo ao seu redor, sendo que por sua natureza de insistente permanência, tais mudanças acabaram por destruir aquele ser que ele era e que muita saudade deixou por sua partida.
Então já é hora, o ano quase a findar, e entre fogos de artifício e gritos e risos da multidão dispersa pela cidade a brindar o fim de mais um ano em poucos minutos, agora aquela figura triste a contrastar sua aparência apagada e sombria pela de outras pessoas, jovens ou velhas, põe-se então a lembrar pela última vez a situação que se deu a exato um ano atrás quando se encontrava em igual estado emocional.
Era dezembro passado, e, do alto de um prédio, olhava a cidade onde nasceu naquele mesmo grande abc de lutas e mudanças; pensava assim então que nesse mundo vive-se só prá isso mesmo: ir de encontro às dificuldades e batalhar por cada segundo em que se consegue manter a cabeça fora d'água, respirando o precioso ar... . Refletiu então, estava ali perfeita analogia, respirar é o que resume estar vivo, de um jeito ou de outro, não importa que tal vitória apague-se diante da mais certa das verdades, que já o sabemos: morreremos então.
E assim foi que, amarga paródia talvez, resolveu que aquela seria sua resolução de ano-novo para o 2003 que já quase ia chegando: ainda naquele ano deixaria de viver, cessaria de respirar e levaria (se assim fosse-lhe permitido) todas as suas tão doces lembranças de seu passado fugidio para um outro lugar.
Tais minutos preciosos foram-lhe roubados com todos estes pensamentos últimos, então sem mais perda de tempo, enquanto ouvia ao longe o coro da contagem regressiva, já na casa do 6 para o 5 e descendo ritmado, o decidido rapaz tira da jaqueta um pequeno revólver e, despedindo-se do ano e também do mundo, dá um único tiro em sua têmpora, que confunde-se com o estampido de uma champanhe aberta, mas logo perde-se no meio de toda aquela vibração crescente de pessoas e da própria cidade à comemorar cheios de expectativas o ano que chegou.
