sexta-feira, 7 de maio de 1999

Numa noite dessas

Meia-noite. Vinha caminhando pela rua sonolento, cansado, quando de repente ouvi umas pisadas. Olhei para trás e foi aí que a vi. Não digo que foi algo instantâneo, pois até ali já eram mais de sete horas quase ininterruptas de trabalho, mas o fato é que a surpresa me pôs todo desperto e atento.

Em princípio, não notou nem á mim nem a importância que dei á sua caminhada naquele princípio de madrugada fria de julho, mas alguém com aqueles exóticos cabelos de um ruivo quase em chamas não deveria realmente se importar com um sujeito carregando um sax desajeitadamente pela metrópole.

- Olá... - me adiantei, após mudar meu rumo - você é a Aline, não é ? - iniciei, um pouco resfolegante.
E, num momento interminável em que sua expressão passou da mais bela serenidade para o puro terror e, por fim, estática ficou numa curiosa perplexidade, ela então me respondeu :
- Não ! E não converso com estranhos, também. Até logo !

Deixei de acompanhá-la e, sob um seco luar de inverno, parado ali enquanto as luzes dos prédios, dos carros e da noite ficavam a dançar diante dos meus olhos cansados, concluí assim (bem á contra-gosto, devo dizer) que o que em princípio me pareceu o reencontro com um grande (se não o único) amor do passado, afinal demonstrou apenas que eu devia estar realmente muito, muito cansado.