sábado, 3 de janeiro de 2004

28 de Outubro

Ela, uma morena de longos cabelos crespos e vivos olhos verdes, e eu apenas o "eu" de sempre, talvez apenas um pouco menos experiente e muito mais impressionável do que hoje.

Ainda sim, lembro com o mesmo aperto no coração e um fogo crescente subindo à minha cabeça quando me recordo de tais fatos.

Era uma tarde como outras, onde uma doce brisa se interpunha a uma tarde de calor tropical daquelas que nunca nos atrevemos a questionar o mérito por tal dádiva da natureza, como se o fato de sermos jovens brasileiros automaticamente nos validava a tal honra. E lá estava eu ao lado de Simone, e mesmo com a nossa diferença de idades (eu um adolescente com treze e ela uma jovem mãe no alto de seus dezoito anos), já há horas inapercebidas seguíamos a conversar sobre tudo e sobre todos, até mesmo e principalmente sobre tudo o que ainda não sabíamos, mas que muito prazer nos dava aos poucos ir descobrindo suas verdades e seus mistérios.

Eu já muito satisfeito com mais aquele delicioso contato travado com minha (não revelada) musa inspiradora preparava-me para partir quando ouvi aquela pergunta que há muito me pertence e ainda hoje ouço seu eco:
- Gostaria de saber como seria fazer amor com você... - Foi assim que de súbito Simone me inquiriu, com sua doce e rouca voz feminina.

Aquilo teve em mim um efeito entorpecente, onde o único pensamento que me foi possível foi imaginar a mim como um farol de trânsito, naquela hora totalmente em pane, passando do verde ao vermelho e trocando este pelo amarelo indiscriminadamente tal era o desvairo.

Não posso dizer que voltei totalmente ao meu normal quando finalmente respondi-lhe algo, afinal meu balbuciar pode ter sido interpretado de diversas formas pela linda garota à minha frente.

E aqui abro um parêntese a esse ponto, como era bela Simone... Seus olhos brilhavam tanto que eu tinha que por diversas vezes ficar a admirá-los para assim poder definir-lhes a cor; seus cabelos transformavam-na em uma amazona urbana, e só a imposição do homem domesticava em trajes contidos aqueles traços e formas generosas que tanto prazer me davam em poucos e breves momentos em que a abraçava entre um e outro cumprimento.

Recordo-me também do espanto que me causava perceber quando estávamos próximos que, apesar de todos os meus pensamentos secretos sobre essa pessoa tão cara a mim, que ela na verdade era da mesma estatura do que eu (citando que aos treze anos era eu ainda menor do que meus meros um metro e setenta atuais).
Mas o fato é que naquele dia inesquecível (a mim, ao menos), respondi-lhe por fim àquela pergunta que me fora proferida tão repentinamente. Acho que simplesmente disse-lhe... que não sabia.

Também ela não disse mais nada sobre o assunto, não na mesma hora, pois breve saí dali tolo e confuso, e nem mesmo nos dias seguintes a ele naquele último ano em que a vi.

Várias mudanças se passaram em minha vida, e sempre mantive guardada a boa lembrança daquela mulher maravilhosa que povoava meus pensamentos e mesmo meus dias, quando o ocaso me deixava entrever sua presença em um ou outro lugar de nossa pequena cidade. Mas já não tínhamos a mesma cumplicidade do passado e assim melancolicamente eu me despedia mudamente dela após tais encontros.

E hoje como em vários outros anos, quando chega o vigésimo oitavo dia deste mesmo outubro marcado a caneta no calendário, retomo o fio-da-meada de pensamentos diversos, sobre o que foi e o que não foi e até o que poderia ter sido e, enquanto concluo que tão feliz sou com aquele (numa atualmente cética definição) possível envolvimento sexual irrealizado, mas ainda assim inesquecível penso à parte n'algum recôndito de minha mente obsessiva que realmente nunca saberei ao certo o que possuí e o que disto perdi.

Termino esta lembrando um poema que lhe fiz naqueles dia:

Para Simone
(algum dia em 1987)

Podia voar, mas queria andar.
Podia seguir, mas preferiu ficar.
E era sempre assim:
"crescer, viver, amar"

Mas em um dia que veio, ficou a pensar:
"Por que não posso ir, mas sim ter que ficar?"
Então decidiu partir, e neste dia foi embora.
Disse: "Ainda é cedo, logo não demoro".

Foi embora triste, mas com uma alegria:
"Se não fossem as idas, onde tudo ficaria?"
E quando lá chegou, parou, olhou e por fim gostou.
Eu já nem sei o que mais aconteceu,
Hoje eu morri e ainda ela não voltou.

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